segunda-feira, 17 de junho de 2013

Aniversário





Enchendo o papo
De ano em ano
A cada data
Mais Caetano.

Balões coloridos
Para escrever essa parte
Mas prefiro dinheiro 
Palmas, velas e arte.

Sem graus de rubor,
Tenho direito a pedidos
Cem graus de café e cor
Sem açúcar, por favor.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dó Ré Mi Fá


(...) Que passava por despóticos com um entusiasmo sem limites. Passava por heróis, por pessoas, por oásis. Passava firme e caprichosa. Flutuava bem leve e trôpega, linda. A saia rodada correndo por entre as pernas de um jeito simples e literal. A noite escura refletindo sua alma introspectiva e sufocada. Lamentos tão intensamente lindos e tristes. Passava sem correntes por toda a platéia, chamando atenção. De salto fino, tão resoluta. Aplausos fora de foco em meio ao seu pranto. Aplausos dados com corações. Tão dançante e tão reflexiva. Claves e fás com maquiagem. E assim, coisas verdadeiramente belas que quase ninguém percebe. Macia e prateada, mexia-se usando dedos ágeis. Passava com aquela calda negra de maneira mansa, só dela. Para alguns, nota de aprovação e para outros, nem tanto. Quase mulher. Dó. Ré. Mi. Fá. Notas de piano.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sertão


Na estrada queimada, correm utopias, sem rumo. Hoje, o sol está mais quente e invasivo, cegando os olhos anônimos. Por ora, saltam sonhos, calor e a sombra de um sorriso carente. Sede. A poeira faz companhia no eco e no oco que de longe, é paisagem. A saudade é uma estrada longa, que sem delongas, nem se tenta explorar. Sede. Baião e sanfona para embalar, com pimenta, pinga e um adeus de barro seco. Coisa de macho. Sede, e quase fome. No ápice da noite, usando um chapéu de palha o caboclo diz, com voz de mel, que sertão é o coração das pessoas e que a vida - mesmo de taipa - pode ser tão bela. Be-la!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Canto


Desafinados, os barulhos saem libertos
Carregando qualquer mensagem outrora
Sem hora, os sonhos fogem dispersos
Nunca mais objetos de penhora.

Sem partitura, o ritmo acontece
E o tempo dissolve-se sem agonia
A melodia corre para abraçar quem merece
A sensação é de amor e eufonia.

Inocente, revela segredos e mundos e céus...
Porções de desejos que a vida sequestra
Mas todo o encanto refugiado em mil véus
Fica bem sólido nessa simples orquestra

O vento sopra a música e apaga as migalhas
Capaz de fazer alguma paz surgir
Discreto e calmo desconhece batalhas,
O canto que só os anjos podem ouvir.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Silêncio


"Não tenho medo do grito dos violentos, 
dos corruptos, dos desonestos, 
dos sem-caráter, dos sem-ética. 
Tenho medo é o silêncio dos bons."
Martin Luther King


Eu vejo um mundo inteiro. Um infinito que só eu enxergo. As flores estão caídas nas calçadas curvas descansando uma vaidade silenciosa sobre o concreto. Eu aqui, calada, procuro uma esperança em cada esquina ou, uma novidade. Mais um dia e não apenas um dia a mais. Calo. Sinto. A solidão fotografa abstrações da minha mente. No silêncio branco, afasto qualquer excesso sufocante, porque calar é falar também. Falar com sua própria carga, com seus pensamentos e seus sonhos. Estar consigo é uma relação vibrante. Estrelas e faíscas. E simples. Sem discurso, cordialidades, sem roupa e sem medos. Vejo, de onde estou - em qualquer lugar agora - multidões inacabáveis, e sei que todos eles estão bem mais sozinhos que eu. Ter a si é necessário. Pertencer a si é um dom, um remédio.
Lá fora, chuva. Aqui, minhas próprias gotas ecoam reflexões tão lindas e completas que me atraem como um ornamento, pela sua forma única. Cheia de um horizonte meu e uma liberdade sem fim. Cheia da uma perspectiva minha e de promessas minhas. De mansidão, viagens, amor e tempo. Cheia de mim e de sussurros. Se a chuva vai embora, meu silêncio retoma todos os seus gritos e conversas, parecendo de longe, fogo em tons laranja. É quando sinto que o tempo nem passa e que a calma é quase eterna ou, que as cores do espectro suavizam-se. Quando tudo volta a fazer sentido novamente, a certeza é quase absoluta e permanente.
A noite surge tão inocente, trazendo um cheiro distante de mar e felicidade e então me pergunto por que não crer nas minhas vontades - tão vivas - e por que não desperdiçar coragem para realiza-las. Por que não qualquer coisa agora?..
Cada um leva consigo seus sentimentos, cansaços, coleções da vida e problemas quase insolúveis, mas quase ninguém cala. Silenciar é crescer e nunca é caro o preço a ser pago. A propósito, o mundo está tão calmo nesse momento e a luz da lua é suficiente. Sem censura, vou sentar na varanda e com o vento, calar.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Alea jacta est

Os pedaços agora, estão desmazelados. Pedaços despedaçados. Faz sentido? Tá sentindo? Ela não sabe mais e nem quer saber. Os cacos estão espalhados pela cozinha, roupas e vidas. Na ponta dos pés, ela luta agora, para não pisar em seus próprios resquícios cortantes. Mas, atendo-se a pormenores e fotos empoeiradas, acaba tornando os cortes ainda mais profundos esperando sabores de mudança. E nada acontece. E nada nas águas que a alguns instantes antes, rolavam pelos seus olhos e visitava seu rosto tão lindo e cansado, tentando não se afogar. E mais uma vez, nada. Todas as memórias e cartas e todos os "tudos" faziam-se presentes numa vontade gritante de que o tempo pudesse voltar, nem que fosse por um sopro. Sem sono e nômade como vento da noite, queria rebobinar. Rebobinar o carpe diem. Poder voltar todo o filme e revivê-lo, porque, para ela, só existia aquela história. Em vezes esparsas, reunia em suas mãos pequenas, boas vibrações e retalhos de força que em qualquer pouco tempo, não produzia efeito algum. E ela, se quebrava. E mais uma vez, pedaços. E mais uma vez, tudo outra vez. A vida então, era um eterna estiagem que roubava todas as chances de felicidade e calmaria. Luz de lanterna insistente, flutuando ausente e alienada. Como borboleta que não mais pode bater as asas, fazia-se quietude. E quieta, dissolvia-se em imaginações, dúzias de hipóteses e dardos lançados mentalmente. "E se...?".
Cansada, ela resiste. Calada, caminha acreditando na elasticidade do elo. Duelo. Cavando covas para enterrar assombrações e arriscando a própria sorte, ela resiste. Com todas as angústias e com o medo de que tudo (de repente) esfarele e seja levado pelo vento. Resiste mesmo assim, porque ninguém nunca havia dito que seria fácil e indolor ou que só existiria compasso e risos. Resiste dizendo repetidas vezes, que vai dar certo, parecendo extremamente forte e corajosa. E talvez fosse. E talvez, seja agora. E daí que esteja im(possível) demais? Resiste, a menina de armadura, porque quer amar. Amar, dura. 
Lá fora, o mundo gira. Pessoas, teleféricos e imagens. O vento típico da época retoma sua velocidade. Para ela, nada agora é visível. Da boca, um gosto molhado e salgado. Suspirando, sente o peso da memória puxando-a de volta ao passado. Ela poderia ter se livrado daqueles flashes e da realidade sem moldes, mas deitou-se fechando os olhos com toda força, deixando que tudo viesse à tona. Ela sempre permitia que os sentimentos voltassem...

A sorte está lançada. 

domingo, 17 de março de 2013

Detalhes secos


Por favor, não me levem a mal. Eu sei que às vezes pareço sensível demais - e não que seja ruim - mas agora, eu realmente quero ser. Eu realmente quero liberar pedaços de sensações estranhamente comoventes. Falar fluídos, falar mundo, falar nada e tentar direcionar meus punhados de reticências. Andei perdendo a noção do meu clichê e dos cômodos da minha casa. Perdendo o futuro ou as brechas, e descobrindo que nos últimos dias, são as coisas mais simples que me trazem uma sensação de maravilhamento. Descobrindo que em somas e acúmulos, me encontro em pó, numa versão de saudade perpétua e, que tampouco sei o que está faltando na minha vida. Não sei de tantas coisas que ainda ontem era capaz de soletrar. Não sei, sobretudo, porque existem aspectos da minha personalidade que me deixam em desvantagem. Aqui, no meu silêncio traíra, espero que algo me aconteça, que algo venha e seja como palavras que um poeta poderia usar para amenizar a escuridão do mundo. Mas nada ocorre. E mesmo que inventar justificativas para os meus vazios não seja algo do meu feitio, criei a teoria trambiqueira de que estamos na geração do individualismo. Então, é normal. Embora, no meu íntimo eu saiba que isso é apenas minha válvula de escape. Normal existir um desencanto que com o tempo aprende-se a reconhecer mesmo sem entender inteiramente. Normal engolir que o conceito de romantismo é complicado demais. Normal não querer sair do balaio. Muito normal pensar que vitrôs coloridos são bregas. Mais normal ainda pensar que na vida de cada um não existe aquele momento inquestionável de mudança, que transforma tudo ao nosso redor. É normal saborear joguinhos. É normal e fácil demais se esconder atrás de conversinhas populares. E ainda bem que é normal. Ufa!
Acredito, ainda assim, no que há por trás. Eu também vivo na convencionalidade, sossegando a alma com as normalidades hipócritas. Mas acredito no muito, no tanto, na poeira acumulada nos rodapés. E, se tenho dias sensíveis com vazios impreenchíveis, obliquidade intensa ou poças fundas é porque sei experimentar o afrodisíaco que está na paisagem da minha janela retangular. Sei ceder às rachaduras, mesmo quando não quero e nem posso. Da minha varanda, deixo os soluços rezarem no meu peito, e penso que o fato de não estar apenas observando as estrelas, mas também estimando o passado, deveria ser inspirador. 
Ainda não sei suprir o meu deserto solitário, solidário e sórdido. Ainda não sei, realmente. Mas sem desabafar mais nenhuma palavra sequer, me esvaio e me despeço (metodicamente despedaçada) limpando minha lama borrada, porque é convencional não aborrecer os outros com detalhes secos.