(...) Que passava por despóticos com um entusiasmo sem limites. Passava por heróis, por pessoas, por oásis. Passava firme e caprichosa. Flutuava bem leve e trôpega, linda. A saia rodada correndo por entre as pernas de um jeito simples e literal. A noite escura refletindo sua alma introspectiva e sufocada. Lamentos tão intensamente lindos e tristes. Passava sem correntes por toda a platéia, chamando atenção. De salto fino, tão resoluta. Aplausos fora de foco em meio ao seu pranto. Aplausos dados com corações. Tão dançante e tão reflexiva. Claves e fás com maquiagem. E assim, coisas verdadeiramente belas que quase ninguém percebe. Macia e prateada, mexia-se usando dedos ágeis. Passava com aquela calda negra de maneira mansa, só dela. Para alguns, nota de aprovação e para outros, nem tanto. Quase mulher. Dó. Ré. Mi. Fá. Notas de piano.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Dó Ré Mi Fá
(...) Que passava por despóticos com um entusiasmo sem limites. Passava por heróis, por pessoas, por oásis. Passava firme e caprichosa. Flutuava bem leve e trôpega, linda. A saia rodada correndo por entre as pernas de um jeito simples e literal. A noite escura refletindo sua alma introspectiva e sufocada. Lamentos tão intensamente lindos e tristes. Passava sem correntes por toda a platéia, chamando atenção. De salto fino, tão resoluta. Aplausos fora de foco em meio ao seu pranto. Aplausos dados com corações. Tão dançante e tão reflexiva. Claves e fás com maquiagem. E assim, coisas verdadeiramente belas que quase ninguém percebe. Macia e prateada, mexia-se usando dedos ágeis. Passava com aquela calda negra de maneira mansa, só dela. Para alguns, nota de aprovação e para outros, nem tanto. Quase mulher. Dó. Ré. Mi. Fá. Notas de piano.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Sertão
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Canto
Desafinados, os barulhos saem libertos
Carregando qualquer mensagem outrora
Sem hora, os sonhos fogem dispersos
Nunca mais objetos de penhora.
Sem partitura, o ritmo acontece
E o tempo dissolve-se sem agonia
A melodia corre para abraçar quem merece
A sensação é de amor e eufonia.
Inocente, revela segredos e mundos e céus...
Porções de desejos que a vida sequestra
Mas todo o encanto refugiado em mil véus
Fica bem sólido nessa simples orquestra
O vento sopra a música e apaga as migalhas
Capaz de fazer alguma paz surgir
Discreto e calmo desconhece batalhas,
O canto que só os anjos podem ouvir.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Silêncio
"Não tenho medo do grito dos violentos,
dos corruptos, dos desonestos,
dos sem-caráter, dos sem-ética.
Tenho medo é o silêncio dos bons."
Martin Luther King
Eu vejo um mundo inteiro. Um infinito que só eu enxergo. As flores estão caídas nas calçadas curvas descansando uma vaidade silenciosa sobre o concreto. Eu aqui, calada, procuro uma esperança em cada esquina ou, uma novidade. Mais um dia e não apenas um dia a mais. Calo. Sinto. A solidão fotografa abstrações da minha mente. No silêncio branco, afasto qualquer excesso sufocante, porque calar é falar também. Falar com sua própria carga, com seus pensamentos e seus sonhos. Estar consigo é uma relação vibrante. Estrelas e faíscas. E simples. Sem discurso, cordialidades, sem roupa e sem medos. Vejo, de onde estou - em qualquer lugar agora - multidões inacabáveis, e sei que todos eles estão bem mais sozinhos que eu. Ter a si é necessário. Pertencer a si é um dom, um remédio.
Lá fora, chuva. Aqui, minhas próprias gotas ecoam reflexões tão lindas e completas que me atraem como um ornamento, pela sua forma única. Cheia de um horizonte meu e uma liberdade sem fim. Cheia da uma perspectiva minha e de promessas minhas. De mansidão, viagens, amor e tempo. Cheia de mim e de sussurros. Se a chuva vai embora, meu silêncio retoma todos os seus gritos e conversas, parecendo de longe, fogo em tons laranja. É quando sinto que o tempo nem passa e que a calma é quase eterna ou, que as cores do espectro suavizam-se. Quando tudo volta a fazer sentido novamente, a certeza é quase absoluta e permanente.
A noite surge tão inocente, trazendo um cheiro distante de mar e felicidade e então me pergunto por que não crer nas minhas vontades - tão vivas - e por que não desperdiçar coragem para realiza-las. Por que não qualquer coisa agora?..
Cada um leva consigo seus sentimentos, cansaços, coleções da vida e problemas quase insolúveis, mas quase ninguém cala. Silenciar é crescer e nunca é caro o preço a ser pago. A propósito, o mundo está tão calmo nesse momento e a luz da lua é suficiente. Sem censura, vou sentar na varanda e com o vento, calar.
terça-feira, 2 de abril de 2013
Alea jacta est
Os pedaços agora, estão desmazelados. Pedaços despedaçados. Faz sentido? Tá sentindo? Ela não sabe mais e nem quer saber. Os cacos estão espalhados pela cozinha, roupas e vidas. Na ponta dos pés, ela luta agora, para não pisar em seus próprios resquícios cortantes. Mas, atendo-se a pormenores e fotos empoeiradas, acaba tornando os cortes ainda mais profundos esperando sabores de mudança. E nada acontece. E nada nas águas que a alguns instantes antes, rolavam pelos seus olhos e visitava seu rosto tão lindo e cansado, tentando não se afogar. E mais uma vez, nada. Todas as memórias e cartas e todos os "tudos" faziam-se presentes numa vontade gritante de que o tempo pudesse voltar, nem que fosse por um sopro. Sem sono e nômade como vento da noite, queria rebobinar. Rebobinar o carpe diem. Poder voltar todo o filme e revivê-lo, porque, para ela, só existia aquela história. Em vezes esparsas, reunia em suas mãos pequenas, boas vibrações e retalhos de força que em qualquer pouco tempo, não produzia efeito algum. E ela, se quebrava. E mais uma vez, pedaços. E mais uma vez, tudo outra vez. A vida então, era um eterna estiagem que roubava todas as chances de felicidade e calmaria. Luz de lanterna insistente, flutuando ausente e alienada. Como borboleta que não mais pode bater as asas, fazia-se quietude. E quieta, dissolvia-se em imaginações, dúzias de hipóteses e dardos lançados mentalmente. "E se...?".
Cansada, ela resiste. Calada, caminha acreditando na elasticidade do elo. Duelo. Cavando covas para enterrar assombrações e arriscando a própria sorte, ela resiste. Com todas as angústias e com o medo de que tudo (de repente) esfarele e seja levado pelo vento. Resiste mesmo assim, porque ninguém nunca havia dito que seria fácil e indolor ou que só existiria compasso e risos. Resiste dizendo repetidas vezes, que vai dar certo, parecendo extremamente forte e corajosa. E talvez fosse. E talvez, seja agora. E daí que esteja im(possível) demais? Resiste, a menina de armadura, porque quer amar. Amar, dura. Lá fora, o mundo gira. Pessoas, teleféricos e imagens. O vento típico da época retoma sua velocidade. Para ela, nada agora é visível. Da boca, um gosto molhado e salgado. Suspirando, sente o peso da memória puxando-a de volta ao passado. Ela poderia ter se livrado daqueles flashes e da realidade sem moldes, mas deitou-se fechando os olhos com toda força, deixando que tudo viesse à tona. Ela sempre permitia que os sentimentos voltassem...
A sorte está lançada.
domingo, 17 de março de 2013
Detalhes secos
Acredito, ainda assim, no que há por trás. Eu também vivo na convencionalidade, sossegando a alma com as normalidades hipócritas. Mas acredito no muito, no tanto, na poeira acumulada nos rodapés. E, se tenho dias sensíveis com vazios impreenchíveis, obliquidade intensa ou poças fundas é porque sei experimentar o afrodisíaco que está na paisagem da minha janela retangular. Sei ceder às rachaduras, mesmo quando não quero e nem posso. Da minha varanda, deixo os soluços rezarem no meu peito, e penso que o fato de não estar apenas observando as estrelas, mas também estimando o passado, deveria ser inspirador.
Ainda não sei suprir o meu deserto solitário, solidário e sórdido. Ainda não sei, realmente. Mas sem desabafar mais nenhuma palavra sequer, me esvaio e me despeço (metodicamente despedaçada) limpando minha lama borrada, porque é convencional não aborrecer os outros com detalhes secos.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Monopólio
Sua camisa desabotoada e seu suor torto.
Sua falta de coerência num excesso de explicações.
Sua coleção de promessas. Sua coleção de perfumes.
Sua mania de ser deserto. De certo, sem querer.
Sua preferência por baralhos incompletos.
Sua risada de vidro.
Sua expressão de areia.
Sua inexpressão gelada. Sua pressão.
Sua face pendurada aqui.
Sua chuva com gotas contadas.
Sua cilada perpétua. Sua armadilha engraçada.
Sua quantia de dinheiro falso.
Sua calça sem bolsos. Sua fantasia bonita.
Sua curva perigosa.
Sua velocidade incompatível.
Sua chave de lugar nenhum.
Sua ressaca de eu lírico.
Sua vida de gelatina.
Seu usufruto com pronomes possessivos.
Sua, seu. Minha, meu. Nosso. Deles.
Eu? sua.
Sua falta de coerência num excesso de explicações.
Sua coleção de promessas. Sua coleção de perfumes.
Sua mania de ser deserto. De certo, sem querer.
Sua preferência por baralhos incompletos.
Sua risada de vidro.
Sua expressão de areia.
Sua inexpressão gelada. Sua pressão.
Sua face pendurada aqui.
Sua chuva com gotas contadas.
Sua cilada perpétua. Sua armadilha engraçada.
Sua quantia de dinheiro falso.
Sua calça sem bolsos. Sua fantasia bonita.
Sua curva perigosa.
Sua velocidade incompatível.
Sua chave de lugar nenhum.
Sua ressaca de eu lírico.
Sua vida de gelatina.
Seu usufruto com pronomes possessivos.
Sua, seu. Minha, meu. Nosso. Deles.
Eu? sua.
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