domingo, 24 de fevereiro de 2013

Monopólio

Sua camisa desabotoada e seu suor torto.
Sua falta de coerência num excesso de explicações.
Sua coleção de promessas. Sua coleção de perfumes.
Sua mania de ser deserto. De certo, sem querer.
Sua preferência por baralhos incompletos.
Sua risada de vidro.
Sua expressão de areia. 
Sua inexpressão gelada. Sua pressão.
Sua face pendurada aqui. 
Sua chuva com gotas contadas.
Sua cilada perpétua. Sua armadilha engraçada.
Sua quantia de dinheiro falso.
Sua calça sem bolsos. Sua fantasia bonita.
Sua curva perigosa.
Sua velocidade incompatível.
Sua chave de lugar nenhum.
Sua ressaca de eu lírico. 
Sua vida de gelatina.
Seu usufruto com pronomes possessivos.
Sua, seu. Minha, meu. Nosso. Deles.

Eu? sua.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Arquitetura


Era um lugarzinho autopiedoso. Uma construção fácil numa trilha serpenteada. Ficava escondido na última rua, na última curva, no último violeta pálido. Por vezes, rodeado de borboletas sem graça. Era um local nu e vulnerável. Nunca compreendi, realmente, aquele lugar. Tinha uma dose muita alta de memórias.. e de amnésia também. Quando bem cuidado, era quase um prisma de cores. Quando mal cuidado, salgado. O lugarzinho, era lindo. Servia de esconderijo. Um esconderijo para aquele tipo de pessoa que esconde a verdade porquê tem medo. Era uma casa, era uma roça, era pau a pique. Era um mundo urbano e era uma natureza calma. Era mil em um. Era uma oferta genuína e ilegível. O lugarzinho parecia nos receber sempre com um sorriso de gratidão. Não tinha endereço mas tinha bocados iguais de sombra e luz. Tinha algumas espécies plantadas em vasinhos de cerâmica. Mas não era concreto. Era tudo feito de alguns dias, alguns anos e uma vida. E tudo naquele terreno era tão, tão...
Anos se passaram e até hoje não consegui entender o lugarzinho. Anos se passaram e até hoje não consegui entender a minha mente.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Louca

Um pitaco de metamorfose
A altura de um batente
Sou o efeito colateral
Um saco de continente.

Por vezes, espremo nuvens
Cuspo magia e assusto o mudo
Sou o grito de Edvard Munch
Na verdade, sou quase tudo.

Uma cápsula de eventos
Verbos sem conjugação
Um pouco de néctar na receita
Sou a assinatura de aprovação

Energia eólica
Textura de fruta rosada
Sou o ontem e o anteontem
Sou uma imensa manchete calada.

Nunca neutra
Nunca nula
Sou símbolos em braile
Sou clandestina e sem bula.



O texto faz referência à obra "O Grito" (Skrink) - Edvard Munch (movimento expressionista)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Plural

Nós somos.
Somos história.
Somos mistura.
Somos inteiros.
Completamos.
Somamos.
Espantamos,espanamos.
Somos romance.
Somos cumplicidade.
Somos peças separadas também. E precisa ser assim, para que haja encaixe.
Somos encaixe!
Somos simples.
Somos complexos.
Fáceis e difíceis.
Somos o que há de melhor.
Sabemos ser o que há de pior.
Somos fatais. 
Somos o topo.
Somos a base.
Somos brasa.
Somos lixo, somos luxo.
Somos sementes.
Somos sal. 
Somos argila moldada. Artificialmente naturais.
Somos cosmos.
Somos átomos também (quando queremos).
Somos o silêncio retilíneo.
Somos a fala, na medida exata.
Somos o abraço, os braços, a fração.
Somos  alguns bocados.
Somos os pormenores de uma multidão.
Uma doença. 
Um semáforo.
Somos plumas e pigmentos.
Somos, por sorte, um plural veloz.
Somos pitada calculada de pieguice.
Um tanto brega. Um tanto encantador.
Somos cadência. Descompasso e batuque.
Nunca somos o vazio. 
Sempre somos o vazio.
Somos sede.
Somos apostas.
Somos migalhas de um inteiro absurdo.
Somos latifúndio. Castelo e reduto.
Somos originais. Alguns fogos de artifício.
Algumas manchas no céu. 
Somos um pito de nada.
Somos as cortinas abertas, o espetáculo.
Somos o aplauso. Do início e do final.
Somos didaticamente falhos.
Uma matemática morta.
Um pretérito perfeito, imperfeito demais.
Perfeitos no espelho do banheiro.
Monstros.
Somos ódio e amor.
Somos um paradoxo. Eterno e passageiro.
Somos nossos.
(...)



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Eram algumas vezes


Era uma vez, um aprendiz. Era uma vez, um mimo. Era uma vez, alguns pássaros num galho seco. Era uma vez, uma lembrança. Era uma vez, uma inocência. Era uma vez, uma piedade e um bordado mal feito. Era uma vez, uma lua minguante. Era uma vez, um sereno suave. Era uma vez, uma flor. Era uma vez, uma carta (de amor?). Era uma vez, um asfalto reto. Era uma vez, um gênio. Era uma vez, uma brincadeira de criança. Era uma vez, um miolo. Era uma vez, um amor. Era uma vez, alguns pingos. Era uma vez, um oceano transparente. Era uma vez, um abraço. Era uma vez, um "sim". Era uma vez, um livro colorido. Era uma vez, um beijo eterno. Era uma vez, um alvoroço de sinos. Era uma vez, uma roda de inúmeros personagens. Era uma vez, uma vírgula. Era uma vez, uma verdade (...)


-


O aprendiz foi embora. O mimo foi desvalorizado. Os pássaros, voaram. A lembrança partiu com o vento. A inocência, quebrou-se. A piedade foi atirada num calabouço e o bordado terminou de desfazer-se. A lua não mudou de fase. O sereno virou chuva, que virou trovões, que virou raios. A flor, eu perdi. A carta, era na verdade, papel mofado e sem alma. O asfalto continua reto. O gênio foi roubado. A brincadeira de criança, cresceu e morreu. O miolo virou embalagem. O amor, que nunca foi amor, virou nada. Os pingos, secaram. O oceano virou aquário. O abraço, viajou. O "sim, transformou-se em "talvez", que transformou-se em "não" e num curto prazo, em "nunca". O livro colorido, desbotou. O beijo, virou desprezo.. que virou praxe de desabitados. Os sinos perderam a cantiga. A roda se desfez em solidão e pitadas de egoísmo. A vírgula, virou ponto final. E a verdade deixou de ser narrada, e agora, está nas entrelinhas.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Pouco


Estive calculando o céu. Naquela noite, havia uma única estrela e eu sabia que você também estava olhando. Sabia que era na mesma hora e com os mesmos olhos. Sabia também, que era com aquela visão horizontal de quem analisa prateleiras, de quem acompanha andorinhas.. 
Estive pensando nas ironias do mundo e nos respingados de tinta que carrego comigo. Sei que as explicações viajaram pro 'faz de conta' e que vou continuar nesse conflito de fábulas.. nesse transbordado quase vazio. Porque, na verdade, eu não sei de nada. 
Estive enxergando paisagens no branco seco e bordando gueixas com a minha mente retalhada. Mas nada fez sentido e na falta de senso, me recortei. Pedaços de infinito. Floco árido.
Estive criando histórias e rascunhando mapas. Até ontem, garimpei os caminhos na tentativa de te alcançar. É que as vezes, eu só quero segurar as oportunidades nas pontas dos dedos para conseguir digerir essa realidade mal cozida. Só quero me livrar dessa pequenez cruel. Só quero poder ser mais renda. Só quero...
Estive assistindo o samba da saudade, num espetáculo nostálgico.
O tempo boceja. O queijo já esfarelou. Cadê meu baluarte? [...]


sábado, 15 de dezembro de 2012

Sono e esboço


E então (...)
Deitou-se. Cobriu seu corpo. Desejava apenas dormir. Ainda estava de All Star e o cansaço inundava. Lembranças invadiram. Sentiu vontade de comer uns cheeseburgers mas virou-se na cama para enganar a fome. Planejou cultivar magnólias no dia seguinte. Planejou também, praticar ginástica sueca. Tantos planos e a fome sumiu. Fechou os olhos. Escondeu aquele azul de inverno.. Lembrou das promessas que ainda tinha que cumprir. Criou atalhos, mentalmente. Respirou fundo e quis se entregar. Respirou fundo pela segunda vez. Teve um déjà-vu. Moveu os dedos engaiolados na meia de lã. Cantarolou pequenas partes de músicas de ninar. Calou-se. Decidiu que não iria concertar as coisas com marteladas. Cogitou cozinhar para si e tirar diversão disso. Tramou fazer uma ligação internacional. Milhares de pensamentos. Na penumbra, as lembranças eram pior que tiro. Lembrou-se do amor. Lembrou-se de amar. Reconheceu que era frágil. 03:47 da manhã e mudou a posição de seu corpo. Se encolheu. Fez uma breve oração. Prometeu recomeçar e o dia amanhã seria melhor. Sorriu. Libertou-se. Morreu.